O Druida I - O sacrificio

 Borboleta, Dedo, Mágico, Mão, Lepidópteros, Luz, Feliz

    Mais um dia na mata.  

    O céu fala comigo nesta noite sem lua. Os homens já chegaram por lá e soltaram sua sujeira. Eu não sei quanto tempo vai durar, eu só sei que cumpro os desejos da Mãe de todos. Sua filha, a natureza tem chorado a séculos. Tais maus tratos nem são dignos de serem comparados. 

    Caminhei aos montes, buscando a solução para o desequilíbrio que tem seguido afora destas verdes paisagens. Mas é noite. Sentei, concentrei e toquei no chão. A terra me mostrava que não havia nenhum grande bicho ou pessoa caminhando perto naquele momento. Busquei um lugar mais aberto, colhi folhas e galhos secos. Com a magia que Ela me concedeu, eu acendi fogo pela ponta de meu indicador. É algo simples de se fazer. Enquanto descansava, espíritos e fadas de Faéria continuavam a passear pela mata ou trabalhar... ou atrapalhar. Cada um com a sua intenção.  

    Um Gavião-gato se aproximou, eu estava de costas quando ele falou:

    -Fogo ao norte, um macaco como tu jogou coisa acesa.

    Sabendo da boa intenção da ave, pedi para que viesse em minha mão e eu, acariciando sua cabeça, li as memorias daquela linda criatura. Um homem havia jogado uma piola de cigarro na beira da estrada. Eu queria proteger esta pequena mata. Enquanto pensava, o fogo se espalharia cada vez mais. Eu precisava de chuva. Olhei ao céu e ele não me deu nenhum sinal de nuvem. Precisava me apressar.

    -Como soluciono este problema de tão longe?- pensei. 

    Olhei ao céu e à mata ao meu redor. Até que uma arvore me falou: -Se aproxime, mago! - Eu me aproximei. - É necessário chuva nesta noite. Faz tempo que não chove e estamos no verão.

    Aquela arvore era uma Massaranduba. Até antiga. Já deve ter visto muita coisa ao seu derredor. As arvores e animais me transmitem confiança. Esta claramente queria água pela ausência de chuvas no verão. Olhei para cima novamente. Se tivessem nuvens no céu, usaria minha magia, nem que me cansasse, para fazer chover. O céu me contou que as nuvens ainda demorariam a chegar da praia.

    -Nenhuma nuvem ao céu - eu não posso criar nuvens no céu, não sou um deus. 

    -Um deus pode!- Exclamou a antiga arvore. - A Mãe. Ela tudo pode fazer. E você é próximo dela. Todos da mata sabem e sentem a ligação.

    Eu sabia o que tinha de fazer. Aquela mata era pequena e eu tinha que proteger como um tesouro, como um filho querido de uma mãe que sentiu dor a dar a luz. Ajoelhei-me diante da fogueira acesa e concentrei na luz da chama. Clamei as fadas que servem a Mãe Divina. Clamei em língua faérica. A chama da fogueira mudou de cor. Ficou azul e tomou forma. Aquela chama se moldava em forma humanoide. E em linguagem faérica um arauto se apresentou. A chama se moldou de tal maneira que se tornara um com sua forma. Era um forte elemental da água. Tão forte que o fogo da fogueira transmutou em água para dá-lo forma. Eu mesmo fiquei surpreso em um ser poder transformar um elemento em outro.

    Da cintura para cima podia se ver o corpo de um homem forte, sem cabelo. Da cintura para baixo não tinha uma forma fixa, pois a água se ondulava e levitava sem forma até sua cintura. Seu corpo era feito de uma água semi transparente e ao mesmo tempo semi luminosa e fosca. A imponente figura se elevava e observava à sua volta.

    Disse o elemental maior na língua estranha das fadas:

    - A senhora, mãe de todos está triste, druida. Triste com uma cria que se destrói e se deprava. Para você ter ideia, só ainda se mantém feliz com você por sua fidelidade. Mas, quanto a este mundo, ainda se mantém por Ela ainda ter planos para ele junto aos outros deuses. Você tem sido um protetor obstinado. Diga para mim, o que faz você querer a presença de um arauto de Dana, Ela mesma que pessoalmente te concedeu a magia?

    Olhando para cima, expliquei:

    - Esta pequena mata precisa de intervenção. Enquanto falamos, um incêndio faz desta flora uma fogueira crescente. As arvores também pedem para serem regadas pelo céu. Preciso de chuva, mas não pude trazer, pois não há água nesse céu.

    Respondeu o arauto:

    - Dana te concede chuva, mas em troca de um sacrifício. Ela quer consigo uma criatura desta mata para Faéria, como de costume.

    Costume deveras antigo. Todos os druidas sacrificam em ultimo caso. Magos malignos sacrificam a seus nefastos senhores, mas os sacrifícios dos druidas tem um sentido diferente. A Mãe ama suas criaturas e as vezes oferecemos uma cria dela para que esta criatura viva em Faéria. Ela ama toda a vida.

    Não desejando tomar uma vida por violência, me concentrei diante do avatar. Perguntei aos animais se algum gostaria de morar em Faéria. Para minha sorte, uma cutia se candidatou. Silenciosa, assentou-se ao meu lado. Realizei o ritual, para uma morte sem dor. Ao entrar em transe, o animal ficou sonolento e desmaiou. Eu saquei a adaga e levemente feri seu busto. Com minha visão verdadeira, vi o animal surgir no mundo das fadas. O animal cintilava numa luz azul clara, seu corpo era arrodeado por camadas de luz. Na verdade eu apenas separei o corpo de carne do seu corpo feérico.

    O avatar pôs o animal em mãos e em silencio foi embora. Eu vi seu corpo voltar a ser chama. Agora a chama da fogueira voltaria ao normal. Aproveitei para cavar um pequeno buraco para o animalzinho que foi agraciado e o enterrei.

    Gotas do céu caíram. Era possível naquele momento ver a queimada como uma forte luz ao norte. A chuva regou a floresta e a terra me mostrou agitação. Os animais corriam por suas vidas durante o incêndio, mas a chuva os confortou. O céu se fechou em nuvens escuras. Naquela noite iria ter boa chuva.

    Pés ao solo, o chão agradecia a nuvem, a nuvem agradecia ao vento que a trouxe e o vento agradecia a Mãe que com seu poder, agiu em misericórdia por uma pequena mata, mas um tesouro para si mesma.

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